Mindfulness

Você já parou para prestar atenção na água caindo no seu corpo enquanto toma banho? Nas sensações que isso desperta? Ou, nas refeições, já prestou atenção nos detalhes dos alimentos que está ingerindo? Nos cheiros, gostos? Na textura? No que aquela comida te desperta? E quando está se movimento na rua? Já parou para estar atento a isso? E, nas suas emoções, pensamentos e em como isso está associado a reações corporais? Já parou para prestar atenção ao seu sofrimento?

Provavelmente não. É que, em geral, nunca estamos “fazendo o que estamos fazendo”, e sim lembrando de algo que já passou ou se preocupando com algo que ainda vai acontecer (ou talvez nem aconteça).

Essa capacidade de estar atento e consciente ao que está acontecendo conosco e ao nosso redor no momento presente é chamado de Mindfulness, ou atenção plena ou até mesmo consciência plena, que são as maneiras como a palavra Mindfulness foi traduzida para o português. Bishop e colaboradores (2004), propuseram que Mindfulness ou a Atenção Plena engloba dois componentes: 1) auto regulação da atenção para o momento presente, e 2) uma orientação de curiosidade, abertura e aceitação para suas experiências. Mindfulness então se trata de uma qualidade de atenção especifica na qual o indivíduo nota seus pensamentos, sentimentos e sensações corporais, momento a momento, com curiosidade, gentileza e não julgamento, enquanto estes acontecem percebendo-se como aquele que observa esses eventos privados. 

O interessante é que Mindfulness é uma característica da mente humana que está presente em todas as pessoas, em algumas pessoas mais, em outras menos, mas está disponível para ser “treinada” e desenvolvida. Um estudo demonstrou que “Análises de modelagem gemelar revelaram que a atenção plena é 32% hereditário e 66% devido a não compartilhamento”, ou seja, pode ser treinado (Waszczuk et al, 2015). 

E como ocorre esse treinamento? Uma das formas mais comprovadas cientificamente para desenvolvermos essa característica é por meio das práticas de meditação. John Kabat-Zinn, um biólogo americano, inspirado nas tradições das suas práticas no budismo, teve a ideia de “traduzir” alguns conceitos e práticas dessa tradição para o mundo ocidental, especificamente no contexto da saúde, iniciando grupos de mindfulness na Universidade de Massachusetts, em 1979, com pessoas que sofriam de dor crônica. Esse programa denomina-se Redução de Estresse Baseada em Mindfulness (Mindfulness Based Stress Reduction – MBSR) e muitos programas foram desenvolvidos a partir do trabalho pioneiro de Jon Kabat-Zinn, como a Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (Mindfulness Based Cognitive Therapy – MBCT), Manejo de dor e doença baseado em Mindfulness (Mindfulness Based Pain and Illness Management – MBPM), Prevenção de Recaídas Baseada em Mindfulness (Mindfulness Based Reduction Prevention – MBRP), entre outros. Todos os programas necessitam de formação específica para serem ensinados.

A partir de então, muitas pesquisas científicas foram desenvolvidas, comprovando os benefícios do mindfulness, especialmente na área da saúde.

Pesquisas indicam evidências de eficácia e custo-efetividade na redução do estresse, ansiedade, depressão e melhora na qualidade de vida de indivíduos saudáveis e portadores de patologias (Khoury et al, 2015). Entre os benefícios potenciais para terapias baseadas em mindfulness, pode-se citar: reforçar a capacidade de refletir sobre escolhas em relação a tratamentos médicos; melhorar a aderência ao tratamento de saúde; aumentar a motivação para a mudança de estilo de vida (dieta, atividade física, relações interpessoais), além da cessação de comportamentos não saudáveis; e promover alterações nas vias biológicas que afetam a saúde, tais como o sistema nervoso autônomo, função neuroendócrina e sistema imunológico. 

É importante ressaltar que mindfulness não é “apenas” prestar atenção em algo. Existem certas atitudes que acompanham as práticas e essas atitudes podem ser treinadas e utilizadas no nosso dia-a-dia. São elas a curiosidade (observar o que surge como se fosse a primeira vez, com a mente do principiante), estar aberto para a realidade do momento presente, aceitando os pensamentos, as emoções e  as sensações que ocorrem, com gentileza (atitude amável para consigo mesmo) e sem julgar a experiência (ela não é “boa” e nem “ruim”, ela “apenas” é – independente do que você possa achar, ela vai continuar acontecendo).

Mindfulness é uma habilidade central nas diferentes abordagens comportamentais contextuais, especialmente por se tratarem de terapias experienciais onde a sessão terapêutica é tida como um laboratório de mudança pessoal. Neste contexto, terapeuta e cliente dispõem-se a estarem atentos intencionalmente ao que ocorre no momento da interação em uma postura de não julgamento.

Os princípios de coragem, curiosidade e compaixão contemplados no treino de Atenção Plena são comuns a estas terapias, e em cada uma delas, o uso desta habilidade e o enfoque dado podem ocorrer de forma distinta. Na Terapia de Aceitação e Compromisso, por exemplo, que promove o aumento de flexibilidade psicológica, a atenção plena está claramente envolvida nos processos de momento presente e eu como contexto. Exercícios de mindfulness como observar as folhas no rio podem ser utilizados como um treino de desfusão cognitiva, assim como fazer contato com a experiência emocional através da observação sem julgamento é um meio para se trabalhar a aceitação. Na Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), terapeuta e cliente, atentamente focados na relação terapêutica, tem como um dos objetivos ampliar a consciência de si e do outro. O terapeuta necessita de um olhar atento, curioso e sem julgamentos para com seu cliente para observar os comportamentos clinicamente relevantes que ocorrem na sessão e o efeito de suas intervenções no cliente. Do mesmo modo, o cliente vai aprendendo a notar seus próprios comportamentos e o impacto deles no terapeuta. Em ambos enfoques até então citados, pode-se praticar mindfulness através de práticas formais com o cliente durante a sessão ou apenas informalmente, através da deliberada intenção de estabelecer focos atencionais para os elementos presentes no encontro terapêutico. 

Outras abordagens, como a Terapia Comportamental Dialética (DBT) e a Terapia Comportamental Integrativa de Casal (IBCT) têm em seus protocolos de atendimento o treino formal de Atenção Plena como uma tarefa importante da terapia. 

Bishop SR, Lau M, Shapiro S, Carlson L, Anderson ND, Carmody J, et al. Mindfulness: A Proposed Operational Definition. Clinical Psychology: Science and Practice. 2004;11(3):230-41.

Khoury B, Sharma M, Rush SE, Fournier C. Mindfulness-based stress reduction for healthy individuals: A meta-analysis. Psychosom Res. 2015; 78(6):519-28

Waszczuk MA, Zavos HMS, Antonova E, Haworth CM, Ph.D.,Plomin R, Eley TC. A multivariate twin study of trait mindfulness, depressive symptoms, and anxiety sensitivity. Depress Anxiety. 2015; 32(4): 254–261.

Representante da Comissão de Mindfulness

Erika Leonardo de Souza